A adaptação do livro “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”, do autor Ramsom Riggs, teve sua estreia no Brasil no dia 30 de setembro. O longo foi adaptado por Tim Burton, que inclusive já havia se manifestado quanto a semelhança entre seu estilo e o da história fazendo o seguinte comentário para o verso do livro: “Vocês têm certeza que não fui eu quem escreveu esse livro? Parece algo que eu teria feito….”.

Já fizemos aqui no blog uma resenha sobre o primeiro livro da série, que você pode ler clicando aqui. Se você ainda não leu o livro – ou não assistiu o filme – e não quer receber spoilers, sugerimos que leia apenas a resenha do livro e que deixe para ler esse post apenas após ter lido ou assistido a história. Se você já conhece a história ou não se importa com spoilers esse post é pra você!

Primeiro, vamos ver o trailer do filme?

A equipe do “A Hora do Chá” decidiu assistir ao filme e trazer duas impressões diversas sobre ele. Abaixo, vocês poderão ler sobre a impressão de quem não havia lido o livro e só tinha uma leve noção da história por meio do trailer, e também a opinião de quem leu o livro e já tinha mais expectativas quanto a adaptação.

A visão de quem não leu o livro

Eu estava animada por esse filme por duas razões: crianças peculiares e Tim Burton.

Com personagens legais e bem pensados, um universo inteligente e divertido e um clima bem à la Tim Burton o filme perdeu pontos comigo por acabar sendo mais infantil do que eu imaginei. Não li o livro, mas as capas e o título me “ofereceram” um universo um pouco mais macabro do que me foi dado dentro do cinema.

Mesmo o longa tendo um vibe que chama ais a atenção de crianças do que de adultos, a história consegue prender o telespectador de maneira forte e tudo acaba sendo uma experiência divertida e nostálgica. Nostálgica por lembrar os filmes anteriores que o Tim Burton dirigiu e, também, pelo fato da relação avô/neto e suas histórias, que foi um ponto que me deixou bastante feliz. Esse detalhe da história ser contada do avô para o neto como se fosse algo que realmente (e realmente) aconteceu é um ponto super fofo e imagino que conseguiu trazer várias lembranças para adultos enquanto eles assistiam o filme.

O universo é bem construído e traz algo que todos já estão cansados de ver porém que continua sendo um tema muito legal independente da época, que é a viagem no tempo. Nesse caso o filme aproveita disso junto com as peculiaridades das crianças e da Senhorita Peregrine o que torna algo muito divertido de ver, que é como ocorre o cotidiano das crianças dentro do orfanato. Confesso que alguns detalhes do filme me lembraram muito a nova série que saiu no Netflix (Stranger Things), tanto que eu não parava de comentar isso dentro do cinema: “OLHA LÁ! OLHA LÁ! PARECE MUITO, VEI!” (Sim, desse jeito.).

Muita coisa me deixou confusa, detalhes que provavelmente passaram despercebidos na hora da filmagem ou que foram só ignorados. Cada criança tem sua peculiaridade, porém no filme muita coisa ficou mal explicada deixando que a nossa mente aceitasse tudo o que era passado sem questionar pelo fato de não saber se a pessoa podia fazer aquilo ou não, ou se no universo deles tudo era possível. [SPOILER] Por exemplo, a Emma tem que usar botas de ferro que pesam para que ela não saia flutuando mundo afora, porque ela não consegue voltar para o chão – que foi o que foi passado do filme para mim – porém na hora que a casa explode ela flutua direto para o chão com Jake no colo. Aí como não li o livro não sei se ela realmente precisava usar os sapatos ou se tinha algo que deixava ele flutuar para baixo (se é que isso existe) [SPOILER]. Mas foram coisas que eu aceitei por enquanto porque não li o livro.

A fotografia de O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é maravilhosa, todos os detalhes da cena muito bem pensados. São cenas prazerosas de se ver, ainda mais quando se gosta do estilo de Tim Burton. A trilha sonora, que é composta por poucas músicas, combina bastante com ambos os climas dos filmes, do passado e do presente.

Como eu disse, eu esperava muito mais do que me foi prometido pelo trailer e pela minha imaginação (mas aí já é um problema meu mesmo, tá meninas?!), e acho que muito do universo e dos personagens poderia ter sido aproveitado de maneira melhor. Depois fiquei sabendo que a adaptação não foi muito fiel ao livro e por esse motivo eu tenho uma curiosidade de ler o livro mais pelo fato de ter achado todas as ideias muito legais (que agora também não sei se é a mesma ideia do filme, mas bora lá).

Você pode ver nosso post sobre a trilha sonora desse filme clicando AQUI!

A visão de quem leu o livro

Os personagens são o ponto principal da história e não tem como não amá-los. Eva Green e Asa Butterfield foram escolhas perfeitas interpretarem os papéis da Srta. Peregrine e Jacob. Porém houveram mudanças drásticas em relação ao livro. As peculiaridades de Emma e Olive foram trocadas, então a peculiaridade de Emma é o ar , enquanto a de Olive é o fogo. Tim Burton se manifestou sobre a troca e explicou que queria deixar Emma mais poética, o que de fato aconteceu, mas também mudou alguns traços importantes da personalidade da personagem, que era mais moleca e ativa no livro. Uma mudança que foi muito bem vinda foi a aparição dos gêmeos e sua peculiaridade como personagens da história, pois na verdade eles só aparecem nas fotos do primeiro livro e não sabíamos o que eles poderiam fazer. E a mudança mais drástica… o vilão, que acabou mudando todo o resto da história.

criancaspeculiares-filme

Em um contexto geral achei o enredo ok. Esperava encontrar um filme mais melancólico, como o livro de fato o é, porém acho que o público alvo desse filme são as crianças e pré-adolescentes e imagino que tenham decidido deixá-lo mais leve. No livro temos mais referências em relação à guerra, ao alcoolismo do pai de Jacob e à morte, temas que foram tratados com muita superficialidade no filme. Além disso, o filme não é uma adaptação fiel do livro, pois a troca do vilão fez com que o final do primeiro livro fosse cortado e surgisse daí uma novo fim, que eu não sei se é inventado ou se é uma mistura com o livro seguinte, que ainda não li.

Notei diversas mudanças em relação ao livro que na verdade não afetam o drama, mas que eu gostaria de comentar. Primeiro, os etéreos comem os olhos das crianças peculiares para virarem acólitos, enquanto no livro eles comiam as crianças mesmo. Segundo, temos a presença de um etéreo na fenda do tempo e a Srta. Peregrine precisa matá-lo todos os dias, no mesmo horário, no mesmo local e isso não tem no livro. Outra mudança foi que cortaram o Ricky, único amigo do Jacob no livro, tornando a solidão de Jacob ainda pior. Sem contar que o encontro de Jacob com as crianças peculiares foi completamente diferente e bem mais leve do que no livro, o que sem dúvida interferiu no aprofundamento dos personagens. Quem é mais puritano com adaptações, como eu,  pode não gostar nada dessas mudanças.

A parte fotográfica, porém, foi o ponto alto da adaptação. O estilo de Tim Burton se encaixa muito bem à história, dando vinda a coisas que pareciam imagináveis quando lemos o livro, como os bonecos de Enoch. Além disso, o filme mudava um pouco de coloração dependendo do momento, com uma aura mais desbotada nos momentos melancólicos e mais colorido quando se tratava das crianças peculiares. Não tem como colocar defeitos nessa parte.

 

Resumindo, o filme é bom, mas passa longe de ser fiel adaptação.