De fato a Literatura Brasileira vem ganhando espaço entre os jovens, mas ao contrario da Literatura Clássica Internacional, a Literatura Clássica Nacional ainda sofre uma espécie de ostracismo e preconceito. Esse problema dá-se em grande parte pela famosa “leitura obrigatória” da escola/faculdade. Dom Casmurro não escapa da classificação, dividindo públicos e opiniões. Chegou a minha vez e não houve escapatória, me pus então a encarar a leitura obrigatória.

A história me prendeu desde o início, mais precisamente Capitu, com uma personalidade curiosa e complexa. Coisa que não ocorreu com a maior parte dos meus conhecidos no qual pareciam relatar experiências dignas de purgatório durante a leitura do mesmo.

Com o desenrolar dos eventos, a história conseguiu me imergir na vida de Bentinho de forma muito agradável, não me colocando no lugar do personagem, mas seguindo a própria forma de narrativa onde o próprio personagem me conta sua história como se eu fosse um novo ombro amigo pronto a ouvir suas magoas de uma vida que não foi exatamente como ele desejou.

Agora começo a discorrer sobre a faca de dois gumes que o livro apresenta. A complexidade da escrita.

O livro é antigo, numa época onde resquícios do (há muito finado) espirito do Romantismo ainda cintilava na mente dos escritores. Quase um completo oposto da grande massa atual, onde a literatura é baseada em se mostrar da forma mais simples o possível para que todos possam entender a mensagem (de forma alguma desmereço essa forma de escrita, apenas evidencio a diferença).

Esse pequeno detalhe faz uma enorme diferença, já que se não fosse pela edição especifica que peguei, onde havia abundancia de notas de rodapé, MUITAS, se não todas as referencias feitas pelo personagem passariam despercebidas por mim. não é um ponto ruim do livro, mas meu, cujo não tenho a bagagem necessitaria para aproveitar o livro em todas as suas perspectivavas. ( e se EU que gostei da história precisei das muletas do rodapé para ter melhor aproveitamento da história, imagine para meus conhecidos condenados ao “purgatório” da literatura clássica.) E como ultimo problema, pelo fato da complexidade eu não conseguia ler mais de dez páginas sem ter que parar para refrescar a mente e as idéias ou eu simplesmente começava a dispersar meu foco do livro e as vezes até sonambular por alguns milésimos.

Mas para contrapor este problema da geração Y, a complexidade da escrita também te traz uma história onde tudo ali é importante, não existem frases soltas ou desconexas, uma narrativa simplesmente impecável no quesito consistência. O Autor consegue levar a sua atenção para onde ele quer sem ter que te forçar a mudar seu foco. Ele não te trata como um idiota assim como muitos enredos de séries atuais, onde alguém tem que gritar – Meu Deus! Aliens atacando o planeta! – na esperança de que você entenda a invasão que está acontecendo.

Você consegue entender tudo oque ele quer te passar da forma certa e no tempo certo, assim como você também nunca descobrirá o que ele não quer que você veja, me rendendo com isso bons minutos de discussão com uma colega de trabalho sobre se Capitu havia ou não traído Bentinho. Algo que você NUNCA saberá.

Para mim foi uma experiencia muito agradável, pois apesar das circunstâncias parei para ler o livro com a mente aberta, esperando que este fizesse jus ao patamar de leitura obrigatória no cerne do que a expressão deveria significar. E este o fez, estou muito satisfeito. Recomendo a leitura, mas apenas para aqueles que já estão prontos para lê-lo. Pegue-o, folheie as primeiras páginas, se ficar interessado continue, caso não, deixe-o de molho mais um pouco e espere a hora certa para ter essa ótima experiência, pois um certo cara sábio já dizia: – A Benção antecipada se transforma em maldição.